A Caixa de Pandora

 

Por Sérgio Pereira Alves (*):

Eu sempre achei interessante falar sobre este tema: Mitologia. Isto para mim tem uma relação estreita com outros assuntos da Psicologia Analítica, principalmente com os conceitos ligados às imagens arquetípicas. E este ponto em comum são os símbolos apesar deles em si, representarem algo extremamente vasto pois um símbolo possui infinitos significados, diferindo de um signo, um sinal que possui apenas um. Mesmo que não reconhecemos o significado de um determinado símbolo em uma narrativa mitológica, a estória ainda nos fascina porque de alguma forma reconhecemos nela algo que está intimamente relacionado com a nossa própria estória. Ou ainda com algo que vem do fundo de nosso ser. Um mito pode tanto ser um relato do que se compreendia como sendo a história da humanidade como também a história de nossa humanidade, como indivíduos.

Em todo mito seus personagens estão intimamente interligados da mesma forma que nossos conteúdos inconscientes. O difícil mesmo é conseguirmos compreender uma pequena parte de uma estória que as vezes possui múltiplas conexões e desdobramentos. Como acontece internamente, é difícil conseguirmos separar o significado de um fato isolado de um contexto geral em nossas vidas. A estória de Pandora, "aquela que possui todos os dons" não foge a esta regra, e para que vocês possam ter uma visão mais global deste mito eu vou lhes dar um breve relato daquele momento histórico. A história de Pandora começa bem antes da própria Pandora.

Antes que o Céu e a Terra fossem criados, tudo era Um. Isso era chamado de Caos. Um grande Vazio sem forma onde potencialmente continha a semente de todas as coisas. A terra, a água e o ar eram um só. A terra não era sólida, nem a água líquida; o ar não era transparente. Mas aí os Deuses e a Natureza começaram a interferir: a terra foi separada da água e, sendo mais pesada, ficou em baixo; a água tomou os lugares mais baixos da terra e a molhou; e o ar, quando tornou-se mais puro, ficou no alto, formando o céu onde as estrelas começaram a brilhar. Foi dada aos peixes e a alguns outros seres a possessão do mar; aos pássaros, o ar; e aos outros seres a terra.

Porém, um animal mais nobre, onde um espírito pudesse ser alojado, tinha que ser feito, e aí surgiu a idéia de se criar o Homem. Esta tarefa  coube a Prometeu ("aquele que prevê"), e seu irmão Epimeteu ("aquele que pensa depois" ou "o que reflete tardiamente"). Eram filhos de Jápeto, que por sua vez era filho de Urano (Céu) e de Géia (Terra) e descendiam da primeira geração dos gigantes destronados por Zeus, os Titãs. Eles haviam sido poupados da prisão por não terem lutado contra os Deuses na disputa para dividir os territórios.

Para executar sua tarefa, Prometeu sabia que nas entranhas da terra dormiam algumas sementes dos céus. Então, pegando em suas mãos um pouco de terra, molhou-a com a água de um rio e obteve argila; moldou-a, cuidadosamente, carinhosamente, até obter uma imagem que fosse semelhante à dos deuses. Mas ainda faltava dar vida àquele boneco. Epimeteu havia criado todos os animais, dotando cada um deles com características como a coragem, a força, os dentes afiados, as garras, etc. Como o homem foi criado por último, o estoque das qualidades estava reduzido. Então Prometeu procurou por características boas e más nas almas dos animais e colocou-as, uma a uma, dentro do peito do homem. E o homem adquiriu vida. No entanto, ainda faltava alguma coisa, algo mais forte, o Sopro Divino. Prometeu tinha uma amiga entre os deuses, Atená, deusa da Sabedoria. Esta admirou a obra do filho dos Titãs e insuflou naquela imagem semi-animada um espírito. E os primeiros seres humanos passaram a caminhar sobre a terra, povoando-a.

Mas o homem saíra das mãos de Prometeu, nu, vulnerável, indefeso e sem armas. Eles não sabiam fazer nada; não tinham o conhecimento de como amolar as pedras para cortar melhor a pele dos animais; não sabiam como pescar, pois não conheciam os meios para tal. Condenados, desde o seu nascimento, os primeiros homens se nutriam de frutas e carne crua. Usavam folhagens para se protegerem do frio. Tinham como abrigo apenas grutas profundas e escuras. Não sabiam nem fazer uso da centelha divina com a qual haviam sido presenteados. Podiam ver, mas não percebiam a beleza do azul do céu; podiam comer, mas não sentiam o doce sabor das frutas; podiam escutar, mas não sonhavam com o barulho das cascatas e o som divino do canto dos pássaros.

Com relação à esta condição humana, existe uma descrição das Eras que se seguiram. A Era do Ouro onde o homem não precisava fazer nenhum esforço para sobreviver. Tudo permanecia intocado pois não havia necessidade de fortificações, armas ou barcos. Uma Era de inocência e felicidade onde a verdade prevalecia e não havia nenhum juiz para ameaçar ou punir. Depois a Era da Prata onde Zeus encurtou a Primavera e assolou a Terra com o calor e frio criando as estações. As casas se tornaram necessárias, a terra deveria ser tratada para produzir frutos e a juventude eterna não existiria mais. Com a Era do Bronze os conflitos começaram. Depois veio a Era dos Heróis. Nesta época Astréia foi a última Deusa a deixar a humanidade. Ela é a Deusa da Inocência e da Pureza que depois de deixar a Terra foi colocada entre as estrelas na Constelação de Virgem – a Virgem Temis ( Justiça ) era a mãe de Astréia. Ela é representada segurando uma balança onde ela pesa as reclamações dos lados oponentes. E por último a Era do Ferro onde as discórdias pioraram. O crime, a ambição e a violência reinaram expulsando a modéstia, a verdade e a honra.

Enquanto isto, na abóbada celeste reinava Zeus e todos os outros deuses. Zeus havia destronado seu pai, Cronos (Tempo) pondo fim à antiga geração dos deuses da qual Prometeu fazia parte. Zeus então voltou sua atenção para a recém-criada humanidade e dela exigia honras e sacrifícios, oferecendo, em troca, sua proteção. Desde que Zeus e seus irmãos começaram a disputar o poder com a geração dos Titãs, Prometeu, apesar de não ter participado desta guerra, era visto como inimigo e seus amigos mortais como uma ameaça constante.

Neste clima de disputas e desconfianças, mortais e imortais se encontraram em Mecone (Grécia) para decidir as obrigações e direitos dos seres humanos. Prometeu intercedeu como legítimo advogado de suas criaturas e pediu aos deuses que não cobrassem muito por sua proteção. Neste ponto, Prometeu teve a idéia de por à prova o poder e a clarividência de Júpiter. Sacrificou um enorme e belo touro e dividiu-o em duas partes e disse aos deuses do Olimpo que escolhessem uma delas, a outra caberia aos humanos. Antes, porém, em um dos montes colocou apenas os ossos e cobriu-o cuidadosamente com o sebo do animal, fazendo-o parecer maior que o outro monte de carne, entranhas e gordura, coberto com a pele do touro. E assim Zeus escolheu o monte maior e ao descobrir que fora enganado por Prometeu, vinga-se dele recusando aos homens o último dos dons para manterem-se vivos: o fogo. Simbolicamente, Deus privou o homem da luz na alma, da consciência.

Sentindo muita pena dos pobres mortais, Prometeu desceu à Terra para ensiná-los a ver as estrelas; a cantar e a escrever; mostrou como fazer para domesticar os animais mais fortes; demonstrou-lhes como fazer barcos e velas e como poderiam navegar; ensinou-os a enfrentar as variantes diárias da vida e a fazer ungüentos e remédios para suas feridas. Deu-lhes o dom da Profecia, para o entendimento dos sonhos; mostrou-lhes o fundo da Terra e suas riquezas minerais: o cobre, a prata e o ouro e a fazer da vida algo mais confortável. E, por último, ele roubou uma centelha do fogo celeste e a trouxe à terra. Com o fogo Prometeu ensinou aos homens a arte de trabalhar os metais. Esta seria uma forma de reanimar a inteligência do homem, dando-lhes consciência, e de proporcionar melhores condições de vida para poderem se defender com armas eficazes contra as feras e cultivar a terra com instrumentos adequados.

Logo que a primeira semente do fogo do Sol foi utilizada em fogueiras a humanidade passou a conhecer a felicidade de viver melhor, de comer um alimento menos selvagem, de aquecer-se e receber luz. Mas, em sua alegria imoderada, os homens julgaram-se iguais aos deuses, esquecendo seus deveres para com seus semelhantes. Zeus sentiu-se irado ao ver que o novo brilho que emanava da Terra era o do fogo. Sem poder tirar o conhecimento de como obter o fogo dos homens, arquitetou um outro malefício. E assim, decidiu punir tanto o ladrão quanto os beneficiados. Zeus entrega Prometeu a Hefesto, seu filho, e a seus seguidores, Kratós e Bia (o Poder e a Violência). Estes levam-no para o deserto de Cítia e lá, prendem-no com correntes inquebráveis à uma parede de um penhasco na montanha caucasiana. E Prometeu preso à rocha, de pé, sem poder dormir e incapaz de dobrar os joelhos fatigados tinha seu fígado devorado diariamente por uma águia. Mas, como ele era imortal, suas vísceras refaziam-se à noite sendo dilacerado novamente no dia seguinte. Sua tortura deveria durar para toda a eternidade pois as decisões de Zeus eram irrevogáveis e ele havia profetizado que seu sofrimento só terminaria quando um homem puro e de bom coração morresse em seu lugar.

Depois de 30.000 anos de sofrimento, Hércules passou por ali e viu o exato momento em que a ave divina destroçava o fígado de Prometeu. Não pensou duas vezes e lançou sobre ela uma flecha veloz e mortal. Depois o libertou das pesadas correntes. Os dois seguiram viagem juntos. Mas faltava cumprir com a exigência de Zeus. Quíron, um centauro, antes imortal, aceitou morrer por ele pois ele havia sido envenenado por Hidra e provavelmente iria morrer de qualquer jeito. Mesmo assim, o senhor dos deuses, obrigou Prometeu a usar um anel com uma pedra encrustada. Era uma pedra retirada do Cáucaso, onde esteve preso. Zeus poderia, assim, vangloriar-se dizendo que seu inimigo continuava preso à montanha.

Para castigar o homem, Zeus ordenou a Hefesto (Vulcano), o Deus das Artes, que modelasse uma mulher semelhante às deusas imortais e que ela fosse muito dotada. A mulher ainda não havia sido criada. Poucas horas depois, Hefesto chegou com uma estátua de pedra que retratava uma belíssima e encantadora donzela. Ela era linda, e clara como a neve. Atená (Minerva) lhe deu a vida com um sopro e ensinou-lhe a arte da tecelagem, os outros deuses dotaram-na de todos os encantos; Afrodite (Vênus) deu-lhe a beleza, o desejo indomável e os encantos que seriam fatais aos indefesos homens. Apolo confere-lhe a voz suave do canto e a música, as Graças embelezaram-na com lindíssimos colares de ouro e Hermes (Mercúrio), a persuasão. Em outras palavras, Hermes deu-lhe graciosa fala enchendo-lhe o coração de artimanhas, imprudência, ardis, mentira e astúcia. Por tudo isso ela recebeu o nome de Pandora ( "a que possui todos os dons"). E da forma mais perfeita e eficaz fez-se o malefício.

Zeus enviou Pandora como presente a Epimeteu cujo nome significa ("aquele que pensa depois" ou "o que reflete tardiamente"). Epimeteu havia sido avisado por Prometeu para não aceitar nenhum presente dos deuses, mas, encantado com Pandora, desconsidera as recomendações do irmão. Pandora chega trazendo em suas mãos um grande vaso (pithos = jarro) fechado que trouxera do Olimpo como presente de casamento ao marido. Pandora abre-o diante dele e de dentro, como nuvem negra, escapam todas as maldições e pragas que assolam todo o planeta. Desgraças que até hoje atormentam a humanidade. Pandora ainda tenta fechar a ânfora divina, mas era tarde demais: ela estava vazia, com a exceção da "esperança", que permaneceu presa junto à borda da caixa. A única forma do homem para não sucumbir às dores e aos sofrimentos da vida. Assim, essa narração mítica explica a origem do males, trazidos com a perspicácia e astúcia “daquela que possui todos os dons”.

Pandora por não ter nascido como uma deusa é conhecida como uma semideusa. Dizem que foi por ambição que ela abriu a caixa. Ela queria se tornar uma deusa do Olimpo e esposa de Zeus. Por isso, Zeus para castiga-la tirou-lhe a vida. Mas, Hades com interesse nas ambições de Pandora, procurou as parcas (dominadoras do tempo) e lhes pediu para que voltassem o tempo. Sem permissão de Zeus elas nada puderam fazer. Hades convenceu o irmão a ressuscitar Pandora. Devido aos argumentos do irmão, Zeus a ressuscitou dando-lhe a divindade que ela sempre desejara. Foi assim que Pandora tornou-se a deusa da ressurreição. Para um espírito ressuscitar Pandora entrega-lhe uma tarefa, se o espírito cumprir a devida tarefa, ele é ressuscitado. Pandora com ódio de Zeus por ele ter a tornado uma deusa sem importância, entrega aos espíritos somente tarefas impossíveis. Assim nenhum espírito até hoje conseguiu e nem conseguirá ressuscitar.

Deste mito ficou a expressão caixa de Pandora, que se usa em sentido figurado quando se quer dizer que alguma coisa, sob uma aparente inocência ou beleza, é na verdade uma fonte de calamidades. Abrir a Caixa de Pandora significa que uma ação pequena e bem-intencionada pode liberar uma avalanche de repercussões negativas. Há ainda um detalhe intrigante que poderíamos levantar do porque a esperança estava guardada na caixa entre todos os males. Dependendo da perspectiva em que olharmos os pares de opostos, a esperança pode também ter uma conotação negativa por ela pode minar as nossas ações nos fazendo aceitar coisas que deveríamos confrontar.

A linguagem mitológica com todos os seus paradoxos, vem de uma necessidade do homem de se conhecer mais. Para espantar o medo e a insegurança e explicar melhor os fenômenos naturais. Tudo que se apresentava aos olhos dos homens, era entendido como personalidades divinas. Assim o sol, a terra, a noite, os rios, as árvores eram deuses. Ménard nos fala dessas alegorias da linguagem onde cada rio era um deus e cada regato uma ninfa.. “Se num trecho eles corriam nas mesma direção era porque eles se amavam.” “As catástrofes, os acidentes da vida se revestiam do mesmo aspecto na narração. A história de Hilas, um jovem arrebatado pelas ninfas, nos mostra claramente o que devemos entender pela linguagem mitológica dos antigos. Nos tempos atuais, quando um jornal nos descreve a morte de um rapaz que se afogou, diria: Deplorável acidente acaba de afligir a nossa comunidade. Um jovem indo de manhã bem cedo banhar-se, morreu tragicamente afogado......etc. Os gregos diriam: Era tão belo que as ninfas, apaixonadas, o raptaram e levaram para a profundeza das águas.”

Assim na narração mitológica, os significados são muito ampliados e uma redução seria cruel pois isto destruiria toda e qualquer aceitação e compreensão de um mito. Todos sabemos que um “bom leitor” é aquele que mantém a sua mente aberta para entrar na narrativa sem qualquer preconceito e racionalidade, para não destruir a realidade que o escritor está tentando criar. Então vejamos: Quando Júpiter se casa com Métis (Reflexão) ele a engole e dá a luz à uma filha Minerva ( A Sabedoria Divina) que lhe sai do cérebro. Se fizermos uso de uma redução, esta é uma imagem terrível, grotesca. Agora, olhe sob essa outra perspectiva; o deus nutre-se da Reflexão para gerar a Sabedoria. Mnemosina (A Memória) desposa Zeus e deles nascem as Musas (A Inspiração). O sopro divino em união com a Memória faz nascer a Inspiração.

Se a verdade do mito segue a alguma lógica, esta é a do Inconsciente. É mais uma intuição compreensiva da realidade da qual não se necessita provas para ser aceita. Pois ela, em si, nos remete à realidade interna nos dando uma vaga noção de significado. Como nos sonhos, quando percenbemos que existe algo de importante ali. E isso também era tudo que Jung pedia ao tratarmos com esta estranha realidade do inconsciente. Manter as nossas mentes abertas para que possamos captar um mínimo dessa linguagem tão peculiar. O mito não é uma lenda. O mito não é uma mentira. Ele nos conta de nossa realidade interna, portanto ele é verdadeiro para quem o vive. A narração de determinada história mítica é uma primeira incursão do homem em sua busca de significado sobre o qual a afetividade e a imaginação exercem grande papel. Mas normalmente quando se fala de mito ou que alguma coisa é um mito, é mais no sentido desta coisa não ter nenhum compromisso com a realidade. Como as lendas que são estórias sobrenaturais, como a mula sem cabeça e o saci pererê.

Os mitos ou a criação destes estão presentes em todas as culturas, em todos os tempos desde o início da humanidade como um mecanismo de sobrevivência do homem em sua tentativa para explicar o mundo através de sua realidade interna. Sua narrativa é um relato projetivo de um material inconsciente onde a linguagem simbólica é naturalmente criada num processo completamente isento de intenção que funciona como uma tentativa para elucidar os segredos. Como vocês sabem a projeção não é um método intencional. Ela acontece, ela nunca é produzida. E na ocorrência dessas projeções, observamos todo um empenho que se resume na busca de significado, no encontro com a sombra e no restabelecimento do contato com o feminino. Nas narrações das “qualidades divinas” de uma Deusa há um movimento de trazer para a consciência algum conteúdo inconsciente: Deméter (a eterna mãe); Koré (a eterna jovem); Artémis (a eterna guerreira) ou Afrodite (a eterna amante).

Estes traços do feminino atribuídos a estas Deusas simplesmente nos mostram o desconhecimento e o fascínio que eles causam ao homem desde a sua origem. Desde os mais remotos tempos, o mito grego representa o feminino como um reflexo importante de diversos aspectos da realidade e evolução que vão além dos limites do papel que a mulher tinha na sociedade grega. Podemos ver isso claramente nos relatos míticos, em trechos das narrativas épicas, das tragédias, como em obras de arte. A Deusa Mãe representava mais especificamente a terra fecunda na qual o homem semeava e de onde retirava tudo que necessitava. Com algumas alterações na representação, a figura feminina ainda ocupava o lugar de destaque e recebia todas as honras. E como a Senhora da fertilidade e da fecundidade ela ainda reinava. Com o correr dos milênios, a imagem da Deusa ganhou novos atributos, e foi associada a diversos animais e a outras funções. Com a expansão das tribos guerreiras do continente, as culturas matriarcais foram conquistadas, e um Deus Macho e guerreiro dominou o panteão. A Deusa, então, assumiu o papel de mãe, esposa ou filha dele. As cidades se tornaram um espaço dos homens e dos Deuses machos; já o interior da casa, o campo, as matas. Isto é, as áreas limítrofes entre o civilizado e o selvagem, eram dominados pela Deusa Mãe em suas múltiplas facetas: Afrodite, Psique, Deméter, Perséfone, Ártemis, entre outras. A cada uma delas coube uma característica, uma pequena parcela do domínio da antiga Deusa Mãe.

No mito de Prometeu e de Pandora, a mulher aparece como um "presente" dado aos homens. Semelhante às deusas ela foi moldada em suas feições recebendo ainda todos os dons divinos. E foi Hermes quem lhe pôs no coração a perfídia e os discursos enganosos, além da curiosidade. Desde então, a mulher é considerada a origem de todos os tormentos do homem. Tanto na tradição Grega quanto na Judaico-Cristã há uma tentativa de transgressão dos limites humanos e é a entidade feminina quem impulsiona o homem para tal ação. Na narrativa dos Hebreus a tomada de consciência era oferecida ao homem por Eva. No mito Grego, houve primeiro uma simulação frustada  pela brincadeira de Prometeu ao tentar testar o poder e a clarividência dos Deuses. Depois o próprio Prometeu traz o fogo como presente mas os homens embevecido com a nova condição, se julgam iguais aos deuses e provocam uma situação de serem punidos novamente. Aí chega Pandora que ao abrir a caixa derrama sobre a terra todas as desgraças. E a conseqüência é a perda do paraíso. Mas também se não fossemos expulsos, não cresceríamos. Ainda hoje, a visão que se tem da mulher costuma ser permeada da influência desses dois mitos. Há quem a veja como uma bênção de Deus e daria tudo para ter a sua companhia. Há, por outro lado, quem pense diferente.

Mas agora lembrem-se que estamos falando de uma realidade interna expressa nos mitos. Esta linguagem simbólica usada projetivamente se resume na busca do homem pelos segredos de seu próprio inconsciente; no encontro com a sombra e no restabelecimento do contato com o feminino. E neste clima de tensões , paradoxos e incertezas confrontamos a nós mesmos na busca pelo equilíbrio. Na procura de significado onde esta anima , tão bela e cheia de perfídia, nos faz crescer.

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((*) Sérgio Pereira Alves é Psicólogo Clínico Junguiano atuando na clínica particular em Belo Horizonte. Autor de vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas.   Realiza palestras e cursos de formação. Contato:target.gif (1770 bytes)